sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Distribuindo riquezas


A manhã havia começado há pouco, poucos carros estacionados no centro da cidade, cidade ainda com cara de pacata. Quis chegar ao escritório central bem cedo, queria sair bem cedo. A lancha recém adquirida no último salão náutico estava pronta para o batismo no mar. Nem bem avistei o prédio da empresa, ainda muitos quarteirões da vaga particularmente reservada a diretoria, o Jaguar simplesmente parou. Uma pane. Se fosse na hora do rush encontraria um inferno de buzinas lá fora. Chovia tão intensamente quanto falsas cuecas inocentes numa sessão de julgamento do mensalão. Pude deixar que o carro seguisse sem marcha pelo declive até encontrar espaço, a essas horas abundante, na beira da calçada.
O socorro do seguro avisou que socorrer mesmo, só mais tarde. Olhei e vi uma pequena porta aberta, aberta mas fechada, só não estava trancada e eu sabia que estava aberta porque era de vidro e havia luz acessa dentro, com gente. Quem trabalha cedo assim merece receber sua cota de riqueza, cota de riqueza que tenho para distribuir. A troco de dar pensei no que receber, um café. Desci, me molhei na água da chuva, chuva abundante. Molhado entrei no café e pedi um, sem açúcar, sem leite, grande. Bebi o café e comi bolo, um pedaço grande dele. Carro pifado, chovendo, num café pequeno, simples, pobre. A chuva não sabia de nós, em si mesma apenas chovia. O casaco que ficou no carro também não sabia de mim, eu que com o desconforto do frio, de leve, tremia. A blusa fina estampa e leve que trouxe no corpo estava úmida, fria. O balcão, indiretamente pelo café, diretamente pela cafeteira e sua caldeira, protegia um pouco do frio de fora quem estivesse por dentro. O casaco dela servia menos a ela do que alguém de fora. Sua riqueza no dia frio era, também, o calor.
Ela tão pobre. Eu tão rico. Por fim despi minha riqueza. Já um tanto aquecido pelo café descobri ser ela quem distribuía. Deu-me o calor.

domingo, 21 de julho de 2013

Foi assim

Um cara estava com fome, viu um negócio, partiu e comeu. Era uma porcaria. Catou outro, partiu, cozinhou e comeu. Era horrível mesmo. Olhou na etiqueta do negócio e leu uma mensagem infernal. Naquele momento o universo brecou nas quatro, a coisa tinha nome. O cara enfiou o dedo na garganta e vomitando agarrado a tudo quanto é capim próximo, imaginou o fundo da terra com um ser muito sádico e gritou:
- Pra criar isso só pode ter sido um demônio!
Chegou em casa e contou para a mulher que ainda estava lá e naquele momento, dona de si, escrevia numa plaqueta 'adeus sutiã'. Como o babado parecia ser quente ela arriscou continuar a relação por mais um ciclo até a próxima TPM, mandou que repetisse a notícia. Disse ele:
- Comi um negócio criado pelo demônio.
Ela não conseguiu compreender a subliminaridade do conto pois não havia contraponto. Então o orelhudo tentou ser mais convincente.
- É que um cara muito legal resolveu fazer esse mundão todo aqui, com laranjas, mangas, mamões, cupuaçus, pitangas... por isso chamamos esse lugar de mundão de meu deus. Um descendente dele, nascido dos longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas, por ter nascido com um maquiavélico cabelo loiro, lisinho penteado pro ladinho, vendo que tudo já estava perfeitamente criado, ficou puto. Um dia fugiu com uma nuvem de caspa enquanto deus penteava seus longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas. O loirinho endemoniado jurou amargar eternamente cada estrutura bípede ereta com polegar opositor e terrestre que fosse criatura do criador. Entocou-se numa fundição, chamou de inferno e inventou o Jiló.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Eterea trela

Há de soprar uma brisa
Qualquer força tenha ela
Desde que ela seja a tua
E que me invada a janela

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O que é a vida?

Nesses meus anos por aqui, nesse universo pequeno que vai do alcance das vistas até o ar que vira vento em meus pulmões, compreender o que é esse diuturno existir me desocupa o tempo vago. Singular como o coletivo, às vezes paro e penso, esse exercício não remunerado que motiva... cheguei a crer, talvez outra vez comum como todo ser saindo do verde sem saber se apodrece antes de estar maduro, que os motivos em ação cobririam esse estar com tempo e espaço num acidental existir.
Motivações para viver são fáceis de encontrar, existem a cada farfalhar ou cheiro de rosa, surgem mesmo quando queremos ser cinzas. Então, no rascunhar da minha tese, a motivação correu logo para o capítulo dos complementos cotidianos, importantes é claro, deixando vaga a enciclopédia que expande a compreensão, humana, do exercício existir. Vontade, desejo, ambição, perversão, fraqueza, covardia, amor, medo, paixão, tesão, desespero, inspiração, transpiração, carinho, caridade, compaixão... e quase todo um dicionário pode ser citado como termo motivador. Até vendedores de carnê usam eles. Indubitável companheira do viver, da angústia por hoje não digo, paro nesta linha em que a cito. As motivações são amorais, grafando de outra forma, servem morais de qualquer ordem. Porém, existir é transitar entre esses conceitos com algo que os precede, sucede, incorpora, sublima. Há algo puro.
Um dia relendo rabiscos entre o papéis amassados dos conselhos sem destino certo, encontrei uma biblioteca de uma fala só. Foi a palavra mais forte que bebi em toda existência, inclusive a dos imaginários lidos. Entusiasmo. Anotado em rodapé lia-se: Alimenta-se da esperança e é tônico para o sorriso, reconhecidamente o mais poderoso dos remédios. Se me perguntassem hoje o que é a vida, responderia tácito, entusiasmo. Tenho muito respeito por ele, quando me desespero procuro ganhar tempo para respirar e vasculhar a prateleira dos livros pouco lidos, a fim de reencontrá-lo. Um dia esqueci disto, ou ainda não sabia, sem bem me perceber passei a borracha no bloco de anotações vitais, justamente onde estava escrito entusiasmo e, sem fazer vento, morri.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Quanticando

Estou quase a ponto de escolher algo que sábios, supostos, dizem ser uma escolha no mínimo inteligente. Como já dizia o bom e velho Shakespeare, supostamente, um dia aprendemos que por mais que a gente se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam. A tribo do Rock, suponho, levanta o dedo do meio, gira a mão em quase punho serrado, faz cara de Einstein e manda um eloquente 'foda-se' quando alguém desdenha das suas importâncias. As funkeiras, supõem-se, viram a bunda e mexem, resumem-se a uma bunda quando desimportam do que querem de si.
Danço com demasiada elegância para me reduzir a uma bunda. Raciocino lento demais para eloquência de uma língua de fora e sou muito provinciano para andar com o dedo em riste. Ainda, dou exagerado crédito aos créditos dos outros para seguir o conselho do William. Por essas e outras que sou gerúndio, sou a ponto de... Um átimo destes faço a curva, dou a volta, salto como elétron, deixo de apenas estar a ponto de escolher deixar de sofrer.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Por querer


Não consigo escrever poesias em dias óbvios.
Na prosa dos óbvios não há poética.
Na poesias, de óbvio, só o caráter de não sê-lo.
Não consigo sê-lo, poético, no sintético.

Assim devem seguir me varrendo a alma
O incerto, o profano, o eclético
Num perder diário sem socorro
Onde te amar é o cessar do hermético.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Divina humildade

E então aquela mulher espiritualmente evoluída, aquele ser que compreendeu e venceu o jogo da vida, o Samsara, olhou para seu hermético deus uno e trino, o que vive dentro de si, afinal o lugar perfeito que ela criou para que seu deus fosse luz. Enternecida com seu sofrimento e resiliência para atingir esse privilégio de ser tão humilde a ponto de prostrar-se de joelhos sobre uma simples almofada de veludo e não de uma ostensiva seda javanesa, seu coração elevado ao alto e certamente mais puro que todos esses outros corações sem o seu deus, talvez mesmo por falta de acesso, esses impuros com quem ela se vê obrigada a conviver e quase se contaminar diariamente, suspira e devotamente modesta agradece a sua luminosa e justa superioridade evolutiva. Depois manda a copeira servir o chá para as amigas que vieram lhe visitar a fim de saber mais sobre sua última viagem ao Tibet, onde adquiriu, mais por caridade que por gosto e, naturalmente por uma bagatela, algumas relíquias a fim de auxiliar artesãos muito pobres que construíram um templo muito simples, mas limpo, nos arredores do hotel seis estrelas que ela se hospedou por três semanas antes de se instalar por seis meses no mosteiro, o mais chique do Tibet, para exercitar o desprendimento material.

Inerências retóricas

escrito e dinâmico * A razão é a busca dela. Está sempre entre seu impulso e sua descoberta. ..............................