Dia puxado no trabalho e a noite chega, sopinha, uma suorzinho bom com essa friaca que chegou inaugurando o inverno, bora pro quarto dormir embaixo das cobertas quentinhas e a pessoa lá dentro diz, aqui só te deitas depois do banho, digo que amanhã acordo e vou pro chuveiro, só te deitas banhado, não tens coração e tal e não teve conversa, apenas um te banhas ou dormes no sofá, eu pessoa resolvida que sou vesti a touca, saí do quarto e agora depois de bastante zanzar pela casa procurando estou pensando seriamente no banho, não temos sofá...
Aqui está o tergiversar ininterrupto que os intervalos empurram dos meus silêncios para este caderno não-papel.
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terça-feira, 4 de junho de 2019
Casado no inverno precisa de sofá
Dia puxado no trabalho e a noite chega, sopinha, uma suorzinho bom com essa friaca que chegou inaugurando o inverno, bora pro quarto dormir embaixo das cobertas quentinhas e a pessoa lá dentro diz, aqui só te deitas depois do banho, digo que amanhã acordo e vou pro chuveiro, só te deitas banhado, não tens coração e tal e não teve conversa, apenas um te banhas ou dormes no sofá, eu pessoa resolvida que sou vesti a touca, saí do quarto e agora depois de bastante zanzar pela casa procurando estou pensando seriamente no banho, não temos sofá...
sexta-feira, 3 de março de 2017
Toba de quem?
- A Carmem está com os papéis na mão dela e é presidente do clubinho, será que não tem jeito de ela mandar enrolar tudo pro novato enfiar no toba?
Porque não tinha o que fazer, Amarildo Assa Sinado tentou não fazer mais nada. Mas a vida de quem tem sina de ser Assa é a sina de não fazer mesmo, não de se fazer não fazendo. E então escreveu para um deputado, assim, com letras minúsculas, mais comum para os deputados. Ele disse vou comer teu cú, o deputado disse, condizente com o minúsculo da letra. Amarildo então escreveu para ninguém, escrito para não fazer, escrevendo mais do que havia para escrever, mas menos do que poderia. E no escrito escrito por ele havia, depois de toba?, um novo escrito.
- Carmem disse que não é ela quem enrola os papéis.
Amarildo Assa Sinado em sua sina de não fazer, foi fazer nada outra vez. Porém havia mais para escrever, o escrito ainda fazia do modo que estava feito, ruim para um não fazer. Então fez outra escrita logo após o escrito.
- Mas será que Carmem não pode pelo menos escolher o toba?
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Inverno Tropical
Chove, venta e troveja. O céu arfa. E de nuvens carregadas, raios disparados por sereias alcançam o cume calmo do morro que me vê.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Conto da contemplação
Palavras. Uma profusão de termos ambíguos implodiu o extinto planeta. Juliano olhava desde si até o riacho. O dia normal alegrou a todos. Sabiam da finitude. Só coisas alegres importavam. O filho observou a ladeira que parecia escorregar por debaixo do objeto animado. Sorriu e disse, bola! O pai contemplou a imaterial completude entre o ser e o espaço. Juliano falou com os olhos, felicidade!
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Distribuindo riquezas
A manhã havia começado há pouco, poucos carros estacionados no centro da cidade, cidade ainda com cara de pacata. Quis chegar ao escritório central bem cedo, queria sair bem cedo. A lancha recém adquirida no último salão náutico estava pronta para o batismo no mar. Nem bem avistei o prédio da empresa, ainda muitos quarteirões da vaga particularmente reservada a diretoria, o Jaguar simplesmente parou. Uma pane. Se fosse na hora do rush encontraria um inferno de buzinas lá fora. Chovia tão intensamente quanto falsas cuecas inocentes numa sessão de julgamento do mensalão. Pude deixar que o carro seguisse sem marcha pelo declive até encontrar espaço, a essas horas abundante, na beira da calçada.
O socorro do seguro avisou que socorrer mesmo, só mais tarde. Olhei e vi uma pequena porta aberta, aberta mas fechada, só não estava trancada e eu sabia que estava aberta porque era de vidro e havia luz acessa dentro, com gente. Quem trabalha cedo assim merece receber sua cota de riqueza, cota de riqueza que tenho para distribuir. A troco de dar pensei no que receber, um café. Desci, me molhei na água da chuva, chuva abundante. Molhado entrei no café e pedi um, sem açúcar, sem leite, grande. Bebi o café e comi bolo, um pedaço grande dele. Carro pifado, chovendo, num café pequeno, simples, pobre. A chuva não sabia de nós, em si mesma apenas chovia. O casaco que ficou no carro também não sabia de mim, eu que com o desconforto do frio, de leve, tremia. A blusa fina estampa e leve que trouxe no corpo estava úmida, fria. O balcão, indiretamente pelo café, diretamente pela cafeteira e sua caldeira, protegia um pouco do frio de fora quem estivesse por dentro. O casaco dela servia menos a ela do que alguém de fora. Sua riqueza no dia frio era, também, o calor.
Ela tão pobre. Eu tão rico. Por fim despi minha riqueza. Já um tanto aquecido pelo café descobri ser ela quem distribuía. Deu-me o calor.
domingo, 21 de julho de 2013
Foi assim
Um cara estava com fome, viu um negócio, partiu e comeu. Era uma porcaria. Catou outro, partiu, cozinhou e comeu. Era horrível mesmo. Olhou na etiqueta do negócio e leu uma mensagem infernal. Naquele momento o universo brecou nas quatro, a coisa tinha nome. O cara enfiou o dedo na garganta e vomitando agarrado a tudo quanto é capim próximo, imaginou o fundo da terra com um ser muito sádico e gritou:
- Pra criar isso só pode ter sido um demônio!
Chegou em casa e contou para a mulher que ainda estava lá e naquele momento, dona de si, escrevia numa plaqueta 'adeus sutiã'. Como o babado parecia ser quente ela arriscou continuar a relação por mais um ciclo até a próxima TPM, mandou que repetisse a notícia. Disse ele:
- Comi um negócio criado pelo demônio.
Ela não conseguiu compreender a subliminaridade do conto pois não havia contraponto. Então o orelhudo tentou ser mais convincente.
- É que um cara muito legal resolveu fazer esse mundão todo aqui, com laranjas, mangas, mamões, cupuaçus, pitangas... por isso chamamos esse lugar de mundão de meu deus. Um descendente dele, nascido dos longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas, por ter nascido com um maquiavélico cabelo loiro, lisinho penteado pro ladinho, vendo que tudo já estava perfeitamente criado, ficou puto. Um dia fugiu com uma nuvem de caspa enquanto deus penteava seus longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas. O loirinho endemoniado jurou amargar eternamente cada estrutura bípede ereta com polegar opositor e terrestre que fosse criatura do criador. Entocou-se numa fundição, chamou de inferno e inventou o Jiló.
- Pra criar isso só pode ter sido um demônio!
Chegou em casa e contou para a mulher que ainda estava lá e naquele momento, dona de si, escrevia numa plaqueta 'adeus sutiã'. Como o babado parecia ser quente ela arriscou continuar a relação por mais um ciclo até a próxima TPM, mandou que repetisse a notícia. Disse ele:
- Comi um negócio criado pelo demônio.
Ela não conseguiu compreender a subliminaridade do conto pois não havia contraponto. Então o orelhudo tentou ser mais convincente.
- É que um cara muito legal resolveu fazer esse mundão todo aqui, com laranjas, mangas, mamões, cupuaçus, pitangas... por isso chamamos esse lugar de mundão de meu deus. Um descendente dele, nascido dos longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas, por ter nascido com um maquiavélico cabelo loiro, lisinho penteado pro ladinho, vendo que tudo já estava perfeitamente criado, ficou puto. Um dia fugiu com uma nuvem de caspa enquanto deus penteava seus longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas. O loirinho endemoniado jurou amargar eternamente cada estrutura bípede ereta com polegar opositor e terrestre que fosse criatura do criador. Entocou-se numa fundição, chamou de inferno e inventou o Jiló.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Divina humildade
E então aquela mulher espiritualmente evoluída, aquele ser que compreendeu e venceu o jogo da vida, o Samsara, olhou para seu hermético deus uno e trino, o que vive dentro de si, afinal o lugar perfeito que ela criou para que seu deus fosse luz. Enternecida com seu sofrimento e resiliência para atingir esse privilégio de ser tão humilde a ponto de prostrar-se de joelhos sobre uma simples almofada de veludo e não de uma ostensiva seda javanesa, seu coração elevado ao alto e certamente mais puro que todos esses outros corações sem o seu deus, talvez mesmo por falta de acesso, esses impuros com quem ela se vê obrigada a conviver e quase se contaminar diariamente, suspira e devotamente modesta agradece a sua luminosa e justa superioridade evolutiva. Depois manda a copeira servir o chá para as amigas que vieram lhe visitar a fim de saber mais sobre sua última viagem ao Tibet, onde adquiriu, mais por caridade que por gosto e, naturalmente por uma bagatela, algumas relíquias a fim de auxiliar artesãos muito pobres que construíram um templo muito simples, mas limpo, nos arredores do hotel seis estrelas que ela se hospedou por três semanas antes de se instalar por seis meses no mosteiro, o mais chique do Tibet, para exercitar o desprendimento material.
domingo, 12 de maio de 2013
Desentraves - Resumo e Discuso
- Resumo
Arrumei a janela do quarto. Já deixava sempre aberta. Fechar era fácil. Enroscava para abrir. Todos os dias a mesma chatice. Praguejei o trilho. Está arrumada. Desmontei e apertei um parafuso. Ele descia e travava a roldana. Ficou quase perfeita. Deixei aberta. Em breve precisaria mexer lá. Choveu. Pude fechar sem medo. Quando quiser abro. Estou livre.
- Discurso
Choveu muito, mesmo demais, chuva a sério, acredite. Chuva dessas de verão que quando começam passam rápido e molham muito. Essa era uma chuva de verão com crise de identidade, demorou a passar, achava que era de inverno. Mas só no tempo, na intensidade muita água, de verão mesmo.E a janela lá, aberta. Eu nunca tive problemas com essa janela, meu desamor era com o trilho, sempre culpei o trilho. Olhava para ele e desfazia até o jeito que fizeram a janela, não pela janela, pelo trilho.
Sempre que acontecia isso, a chuva, se era dessas que pensam que são inverno sendo verão, pior se houvesse vento porque sem vento eu nem iria, se eu lembrasse é claro, corria para fechar a janela. Ela fechava. Assim, era feliz com chuva e frio, porque a janela fechava. Mas quando parava a chuva e voltava o calor... abrir a janela, ela não queria, ou não conseguia. Boa janela, mas o trilho, enroscava, sempre enroscava. Às vezes travava a janela a meio caminho, ficava atravessada, nem ia nem vinha. Prensada entre a parte superior do quadro e ele, o trilho, o traste do trilho.
Suor de molhar a ribana da gola da camiseta. Desmontei a janela, só para ver o trilho, que emperrava e eu não via o porque de um trilho que não passava de um perfil de alumínio quadrado sem arestas, emperrar. A meio caminho já nem queria mais ver o trilho, pensava em outro, comprar outro, fazer outro, criar outro, solicitar uma pesquisa endoutorada da universidade para encontrar o paradoxo do trilho que não serve para trilhar. Quase cai um parafuso, não do trilho, mas dos fixadores da roldana, do quadro de vidro da janela, que corre sobre o trilho. Ele descia e enroscava no agora inocente e antes infernal trilho.
Agora se chove fecho e se o sol aquece, abro. Saindo do trilho fiquei livre.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Sabedoria oriental ultra pós-moderna ocidentalizada
Hoje pela manhã, quando o terceiro raio de sol atravessou a porta de vidro da minha sala, percebi uma borboleta que voava sobre a Grevílea-robusta no centro do jardim. Em meus pensamentos perguntei porque voava sobre as árvores e ela sem que eu tivesse tempo de me assustar, voou até o vidro, pôs a cabeça sobre o ombro e respondeu: Porque voar embaixo delas fica difícil, né!
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Fraternidade - Um sermão na capelinha
A igrejinha de 1772, não é sede e sim capela. Por isso nem sempre tem padre lá dentro. As tardias beatas da vila, os novatos carismáticos, o povo de sempre e um padre puxando a celebração. Ocorre que o velho era já nada novo e anunciava a aposentadoria. Por acaso fui à missa naquele dia, já andava enjoado de ir uma vez por ano, acumulei mais uma ida, 2009 já contava com três ou quatro visitas minhas. Lá dentro é geralmente mais quieto que fora.
O que vale do causo é o seguinte:
Ninguém compreendia o sermão. O padre falava, olhava para todos e só encarava um punhado de gente fazendo cara de paisagem, porque entender mesmo, necas de pitibiriba... Antiga vila que derretia baleias inteiras para extrair o seu óleo, produto que precede a civiliação e possibilitou a luz elétrica e até os blogs e computadores, pela sua ousadia e riqueza a Armação do Pântano do Sul possuía uma capela mais igrejinha que as capelas de outras vilas. O padre mais ia até sede do conselho, menos até a capela, números. Ele contava o que pensava sobre as coisas inventadas pelo homem e o que era criado por Deus, mais importante segundo o padre. Eu meio que sorria e vez por outra olhava também pelo entorno, sorrindo, achando graça, essa que se acha quando algo verdadeiro acontece e nos aclara as ideias. Tentava um assentimento, um compartilhamento. Mas pro meu ver também só mostravam paisagens estampadas na cara. Só o padre, já que a capela que é igrejinha deixa a gente perto, vez por outra me olhava e, entendimento meu, esboçava um sorriso aliviado, como quem pensa que dois ou três estão entendendo e então já valeu a missiva.
Sem muito falar com o peso de palavras sérias de pai, mais com dizer de prosa, de conversa na sala, o pai emprestado desdizia um punhado de coisas, quase todas as coisas que padres sempre dizem, que a igreja sempre diz. Trocava tudo por um conceito, qual seja: Fraternidade
Assim falava ele.
Cantar não é preciso, nem baixo, nem alto. Isso é a parte da festa, da celebração. O homem inventou isso, não foi Deus, Ele não precisa disso e nem está preocupado com o canto, isso não muda nada. Rezar, também não precisa, não muda nada. Se rezar fizer bem, faz a você, Deus não precisa de reza. Pedir, suplicar, fazer promessa... nada, coisa inventada pelo homem. Deus vê tudo, você não precisa avisar a Ele. Tua religião não importa, o homem criou as religiões, Deus não está preocupado com a tua religião. Vir a missa, não precisa, pode ficar em casa, missa é invenção do homem, Deus não criou a missa. Se você tem mais facilidade de se acalmar, de apaziguar a alma estando na igreja, com outras pessoas, rezando e cantando para se sentir perto de Deus, ótimo, venha. Gosta de outro tipo de templo, ou de casa. Gosta de outro tipo de celebração, vá, ou não vá. Isso não importa. Mas Deus não vai te dar algo em troca por isso, isso não vai te salvar ou condenar, não há nenhuma importância nisso para Deus, só para você... e assim é tudo que cerca o que você vê aqui, inclusive eu.
Naquela missa a igreja estava lançando a campanha da fraternidade do ano de 2009 cujo lema era Fraternidade e Segurança Pública. Programações e coisarada que envolvem esse evento anual católico. E o padre, que ia se aposentar, talvez motivado por isso, já que os chefes não poderiam mais lhe encher os pacovás, perdoava a gente de tudo, livrava de tudo. Fraternidade, só isso. Nenhum dogma, nenhuma doutrina, nenhuma obrigação para seguir. Fraternidade, segundo o padre, o único mandamento vindo de Deus. Nenhum outro mandamento, só esse. Frizava, único. Todo o resto, segundo o padre, inventados pelo homem. Podem até ser bonitinhos, mas completamente humanos, desnecessários para Deus. Encerrou o sermão olhando para os fiéis, geralmente infiéis e quase sempre com cara de paisagem dizendo que, qualquer um que estivesse por ali, incluindo os músicos, ou que sentisse alguma obrigação de rezar, confessar e essas coisas que são da igreja para ter a sua salvação, podia ir para casa tranquilo, pois nada disso afeta a Deus, nada.
Fraternidade.
Fiquei feliz, abençoado, livre. Terminou a missa. Deus continua lá e eu cá. Um dia a gente se encontra.
O que vale do causo é o seguinte:
Ninguém compreendia o sermão. O padre falava, olhava para todos e só encarava um punhado de gente fazendo cara de paisagem, porque entender mesmo, necas de pitibiriba... Antiga vila que derretia baleias inteiras para extrair o seu óleo, produto que precede a civiliação e possibilitou a luz elétrica e até os blogs e computadores, pela sua ousadia e riqueza a Armação do Pântano do Sul possuía uma capela mais igrejinha que as capelas de outras vilas. O padre mais ia até sede do conselho, menos até a capela, números. Ele contava o que pensava sobre as coisas inventadas pelo homem e o que era criado por Deus, mais importante segundo o padre. Eu meio que sorria e vez por outra olhava também pelo entorno, sorrindo, achando graça, essa que se acha quando algo verdadeiro acontece e nos aclara as ideias. Tentava um assentimento, um compartilhamento. Mas pro meu ver também só mostravam paisagens estampadas na cara. Só o padre, já que a capela que é igrejinha deixa a gente perto, vez por outra me olhava e, entendimento meu, esboçava um sorriso aliviado, como quem pensa que dois ou três estão entendendo e então já valeu a missiva.
Sem muito falar com o peso de palavras sérias de pai, mais com dizer de prosa, de conversa na sala, o pai emprestado desdizia um punhado de coisas, quase todas as coisas que padres sempre dizem, que a igreja sempre diz. Trocava tudo por um conceito, qual seja: Fraternidade
Assim falava ele.
Cantar não é preciso, nem baixo, nem alto. Isso é a parte da festa, da celebração. O homem inventou isso, não foi Deus, Ele não precisa disso e nem está preocupado com o canto, isso não muda nada. Rezar, também não precisa, não muda nada. Se rezar fizer bem, faz a você, Deus não precisa de reza. Pedir, suplicar, fazer promessa... nada, coisa inventada pelo homem. Deus vê tudo, você não precisa avisar a Ele. Tua religião não importa, o homem criou as religiões, Deus não está preocupado com a tua religião. Vir a missa, não precisa, pode ficar em casa, missa é invenção do homem, Deus não criou a missa. Se você tem mais facilidade de se acalmar, de apaziguar a alma estando na igreja, com outras pessoas, rezando e cantando para se sentir perto de Deus, ótimo, venha. Gosta de outro tipo de templo, ou de casa. Gosta de outro tipo de celebração, vá, ou não vá. Isso não importa. Mas Deus não vai te dar algo em troca por isso, isso não vai te salvar ou condenar, não há nenhuma importância nisso para Deus, só para você... e assim é tudo que cerca o que você vê aqui, inclusive eu.
Naquela missa a igreja estava lançando a campanha da fraternidade do ano de 2009 cujo lema era Fraternidade e Segurança Pública. Programações e coisarada que envolvem esse evento anual católico. E o padre, que ia se aposentar, talvez motivado por isso, já que os chefes não poderiam mais lhe encher os pacovás, perdoava a gente de tudo, livrava de tudo. Fraternidade, só isso. Nenhum dogma, nenhuma doutrina, nenhuma obrigação para seguir. Fraternidade, segundo o padre, o único mandamento vindo de Deus. Nenhum outro mandamento, só esse. Frizava, único. Todo o resto, segundo o padre, inventados pelo homem. Podem até ser bonitinhos, mas completamente humanos, desnecessários para Deus. Encerrou o sermão olhando para os fiéis, geralmente infiéis e quase sempre com cara de paisagem dizendo que, qualquer um que estivesse por ali, incluindo os músicos, ou que sentisse alguma obrigação de rezar, confessar e essas coisas que são da igreja para ter a sua salvação, podia ir para casa tranquilo, pois nada disso afeta a Deus, nada.
Fraternidade.
Fiquei feliz, abençoado, livre. Terminou a missa. Deus continua lá e eu cá. Um dia a gente se encontra.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Fado
O menino encontra o tio, aquele tio mais querido que os outros tios, o tio que ele curte encontrar porque , sei lá, tem um jeito diferente dos outros tios. Puxa o tio veio e como é legal estar com ele. Passa o dia, tem aquele circo na cidade, há uma semana que o circo está ali. Que vontade de ir ao circo com, com, com o tio querido, porque é mais divertido ou simplesmente o menino acredita que o tio compreende melhor ele, tem alguma coisa a mais nele, faz bem ao menino. O tio se diverte, gosta do sobrinho, curte sair ou tocar violão pra ele. De repente um 'hei tio, me leva para o circo?'. Eles sabem que o circo vai voltar, talvez não o mesmo, mas outro, o menino sabe que existirão muitos momentos para ir ao circo, mas a ideia de ir naquele dia, com o tio, naquele circo que nem é tão especial, é uma alegria que se constrói no coração do menino. O tio aceita, acha legal. O menino sonha e deixa o dia seguir, está feliz com as coisas simples e realmente importantes na vida dele, como comer a pipoca antes do circo, mesmo que não seja tão boa como a da sua mãe e ele não é tão apaixonado assim por pipoca. O mundo vai seguir girando depois que forem ao cinema, antes também, se acontecer alguma coisa e não der para ir, tudo bem, essas coisas acontecem. Final do dia o tio vem até ele, que sorri com o espírito elevado, outra vez passa a mão na cabeça dele e diz 'to indo pra casa, depois a gente se fala, tchau'.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Confissão de temporal
Existem -se penso, logo...- momentos em que a precedência de eventos naturais, por conseguinte obras donas de si e maiores que nossa força, moldam intenções de movimento. A vontade de acudir, no sentido de proteger pessoas que povoam nossas melhores vontades de permanência e de se acolher nelas ou com elas, cresce com a ampliação das percepções extra e sensoriais provocadas por grandes transformações ambientais. Sonhando assim, num prelúdio de ventania atemporal, vi:
'O vento soprou o cinza sobre minha casa, as folhas de bananeira roçavam o telhado num dizer de telégrafo rápido e preciso que despertava a atenção. Entre as pessoas que se agruparam em minha mente nos seus rumores e tipos de ser, estava você. Te vi com olho de foco perfeito, mesmo distante de mim te sabia cada linha de expressão. Por ser sonho real aceitei que o balé enérgico das ondas nem sequer te lançavam névoa. Com uma âncora firme presa a balsa que te deixara ainda mais sinuosa, tapetes macios acariciando os pés, cobertores e almofadas aqueciam esse teu canto. Num sorriso combinado com um olhar de quem espreita e, feminina, mira seu querer, me fizeste um convite para repousar em teus braços. Comemos amêndoas doces.'
'O vento soprou o cinza sobre minha casa, as folhas de bananeira roçavam o telhado num dizer de telégrafo rápido e preciso que despertava a atenção. Entre as pessoas que se agruparam em minha mente nos seus rumores e tipos de ser, estava você. Te vi com olho de foco perfeito, mesmo distante de mim te sabia cada linha de expressão. Por ser sonho real aceitei que o balé enérgico das ondas nem sequer te lançavam névoa. Com uma âncora firme presa a balsa que te deixara ainda mais sinuosa, tapetes macios acariciando os pés, cobertores e almofadas aqueciam esse teu canto. Num sorriso combinado com um olhar de quem espreita e, feminina, mira seu querer, me fizeste um convite para repousar em teus braços. Comemos amêndoas doces.'
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
O portal e Perla
Perla perguntou se eu conhecia a dor, aquela que contou ter descoberto também nos que já sofrem a falta do mínimo para viver. Chamou de angústa existencial e disse que todos possuem, quero dizer, em alguns momentos são possuídos por ela. Mas o nosso ônibus amarelinho que pára até fora ponto, esse que dá ar fresco forçado para privilegiados, fez força para a direita e venceu a inércia da reta. Essa curva descobriu o mar de um lado e um paredão cinza cor de pedra do outro. Nos olhos dela, inundados de horizonte, vi o portal do morro das pedras me isolando da urbanidade. Chegados à nossa realidade paralela de paraíso, quis reviver o transe único do horizonte bebendo naqueles olhos. Assim é que descobri o quanto pode ser intensa a angústia. Ao chegar em casa, sem poder enxergar os dela, cerrei os meus.
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