sábado, 21 de junho de 2008

Herança inoxidável!

Disse-me um dia meu avô Adil Alves Malheiros, que a arte é nosso ofício no Céu.
Quando um Brasil, não o país, não os homens, não as mulheres, não quem estava a favor nem tampouco os malucos inconformados do contra agitadores reacionários, mas sim um Brasil indivíduo, viveu o mando de alguns filhos de uma grande puta chamada ditadura, meu avô viveu seu sítio sitiado. Alguns anos andados e nós os infantes, experimentávamos a ditadura sem saber-lhe os interesses e conceitos. Netos recebem contos de gerações das suas famílias e comem aqueles que mais lhes aprouve ou mais lhes transpassa a carne ou que lhes deixa sinal evidente na pele. Este cerco opressor ao meu lugar da vida de infância que fisicamente era propriedade de meu avô tornou-se meu ferro quente.
Fronte em riste para dizer poesia, tez serena e olhos esbugalhados para contar assombros, faziam dele em meu imaginário, difícil de adivinhar. Da casa grande onde ele vivia e eu bebia parte da construção das minhas primeiras ideologias, melhor lhe tingia a aura um anexo simples em tábuas com mata juntas com chão em piso queimado, que me remetiam a intuir uma casa antes sida, pois mantiveram ou construíram, conforme o caso, duas paredes em L. A cor foi sempre para mim o azul.
Quis o dia que ele estivesse ajeitado em uma cadeira não reta, tampouco muito espraiada, para contar ao eu antes de agora sobre o que faríamos quando saídos desta para a outra vida.
Neste ponto uma licença: Se para o de comum aceito se crê melhor que aqui estamos na vida e esta finda com a morte então não vale a fala de meu avô, se para a crença de cada um renascemos ou não em outra vida terrena ou divina talvez não valha a pena dar atenção a tão inocente anotação de neto. Talvez me convença um dia a idéia de que estamos mortos a sonhar até o dia que não mais resista o imã da morte e nasçamos para o que em verdade será a vida e daí o que me disse o avô haverá de ser urgente.
Tornando.
Por líquido material real palpável me disse o avô que no Céu tudo é alegre. Uns cantam, outros tocam, uns compõem histórias, outros contam, tornando assim o paraíso digno do nome.
Acontece que este avô difícil de adivinhar concluiu a prosa monológica imprimindo a sua assertiva de que não nos é certa a permanência no Céu pela correção na Terra. O andar correto por aqui apenas nos abre os portões do Éden. Para lá permanecer, ele assim o determinou, faz-se necessário o proveito na manutenção da alegria.
Cadê meu violão...

domingo, 15 de junho de 2008

Pé por pé...

Num compromisso de anos assumido
Em que viajar é o sentido de ser procura
Procurei minhas forças deixadas pra trás
Num quarto de máquinas e remédios

Passaram tantos dias quase vazios
Que somaram duas semanas quase vazias
E preencheu-se a segunda semana
De uma ferida na bunda

Quero levantar vôo
Quero tocar outros campos
Quero andar livre e em cima de minhas pernas

A voz do amigo ecoa em meu ouvido:
Primeiro cura a bunda
Depois encilha o cavalo

sábado, 7 de junho de 2008

Sábado é um dia...

Um somado de dias
Juntados num sábado
Recriado sem choque
Recriado sem susto
Sem cama de aparo
Sem frio de laboratório
Com passos ao lado
Com passos ao largo
Juntados num sábado
Que porque triste
Que porque vivo
Vazio do eu outro
Vazio de outro eu
Diminuido na solidão
Diminuido nas dúvidas
Sobre ele é sempre
Sábado é um dia...

terça-feira, 3 de junho de 2008

domingo, 18 de maio de 2008

Sábados

Viva a alegria de ter
Em todo sábado que ansias
A certeza de um colo
Um afago

Viva a beleza de ser
Em todo sábado que te chega
A figura de um sonho
Um lago

Te livre o tempo de chegar aos sábados
Estes comuns sábados que me chegam agora
Cheios de nada

E farás de ti e de quem tu és
A soma de sábados felizes de memória
Envoltos em alegrias e sonhos

terça-feira, 13 de maio de 2008

Dissimulação

- Trapaceie para vencer! Dissimulação! Isto é mais um caso para a dissimulação! Trambicagem, enganação, ludibriação, trapaça mesmo. Quase como sempre. Entendeu?
Disse assim de pronto, como natural fosse responder a um menino de oito anos que ele vai morrer, dificilmente vai ser feliz e que vai ser enganado quase que permanentemente, principalmente por ele mesmo. E a dúvida nem era para tanto visto querer saber o incauto menino como se obtém sucesso. Pai frustrado é uma bosta!
- Mas é preciso saber enganar, afinal o mundo é dos espertos, e se você for muito inteligente, muitos não se deixarão enganar, afinal a maioria é burra e pode não entender o que você está tentando parecer ou querer. Entendeu?
- Não.
- Não. Ótimo!
- Pai, você é meio esquisito. Você é um trambiqueiro? Engana as pessoas?
- É o que eu to tentando fazer agora com você? Se der certo você vai ter aumentadas as tuas chances de viver melhor. Entendeu?
- Não.
- Não. Ótimo!
- Quem vai ser o campeão da copa?
- Quem enganar melhor!
- Pai, não é por acaso quem jogar melhor?
- Não.
- Não????? Ótimo.... agora é que eu não entendo nada... mesmo...
- Ótimo.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O auge da culinária

O auge da culinária comentada pelo nosso grupo de amigos pouco foi apreciada na mesa.
A condição de experimentar pratos saborosos e famosos inclui o acesso a esses pratos. Diante do rebusque exigido na preparação do palato para se chegar ao condicionamento do cérebro que reconhece nuances de vários alimentos, a operação de comentar qualidades de formas várias de gostos começou a me parecer mais exercício dialético ou de pesquisa literária do que de prova.
Ouço cada vez mais, da boca de verdadeiros entendidos, indicações de cakes divinos, donnut's irresistíveis. O desfile de terminologias diferentes para coisas conhecidas permeia conversas no, calculo, afã de repartir conhecimento...
Fui presenteado com um molho de pimenta. Pimentas vermelhas, colhidas a mão, envelhecidas em barricas de carvalho. O tal molho tem um nome de fábrica, nome de produto. Ainda assim, ressalvada a alta qualidade, é um molho de pimenta. Mas é só cair na mesa e os interessados ao pedirem o seu alcance, tratam-no pelo nome de fábrica. Porque não pelo que é, molho de pimenta. E não temos em casa vários molhos de pimenta para que se destaque um.
Alguns dias depois recebi de presente uma especiaria dentro de um vidrinho. A erva principal embebida no óleo é o basílico. Fiquei mais empavonado que já sou. Uma erva fina, diferente e incomum para o meu meio. A desilusão veio num programa que trata de culinária, quando assisti pela televisão, em um meio de comunicação de massa, a destruição de minha distinção como possuidor de basílico; a ilustre apresentadora disse que tal erva é o nosso manjericão. Manjericão. Isto tem no pátio de casa!
Noutro dia estávamos reunidos e surgiu o churrasco na bola da vez. Um amigo comprou duas ou três peças de costela. Carne boa, fogo bom, e um bom assador, modéstia à parte, garantiram um bom almoço. No meio da tarde perguntaram que pedaço da costela era aquele.
Polêmica à vista. Didaticamente indiquei com as mãos em meu corpo onde se localizava no boi aquela parte da costela. O ato surtiu um efeito interessante. Uma amiga presente disse ser meio estranho, quase mórbido fazer aquela indicação.
O que assustou na ação foi a ligação do pedaço de carne, que todos comeram, com um animal vivo, que no caso era eu.
A partir daí conversamos sobre vários animais, como abatê-los, como recortá-los. Um ato que pela maioria foi compreendido como violento, brutal e desumano.
Ninguém deixou de comer carne assada no dia seguinte.

Inerências retóricas

escrito e dinâmico * A razão é a busca dela. Está sempre entre seu impulso e sua descoberta. ..............................