O auge da culinária comentada pelo nosso grupo de amigos pouco foi apreciada na mesa.
A condição de experimentar pratos saborosos e famosos inclui o acesso a esses pratos. Diante do rebusque exigido na preparação do palato para se chegar ao condicionamento do cérebro que reconhece nuances de vários alimentos, a operação de comentar qualidades de formas várias de gostos começou a me parecer mais exercício dialético ou de pesquisa literária do que de prova.
Ouço cada vez mais, da boca de verdadeiros entendidos, indicações de cakes divinos, donnut's irresistíveis. O desfile de terminologias diferentes para coisas conhecidas permeia conversas no, calculo, afã de repartir conhecimento...
Fui presenteado com um molho de pimenta. Pimentas vermelhas, colhidas a mão, envelhecidas em barricas de carvalho. O tal molho tem um nome de fábrica, nome de produto. Ainda assim, ressalvada a alta qualidade, é um molho de pimenta. Mas é só cair na mesa e os interessados ao pedirem o seu alcance, tratam-no pelo nome de fábrica. Porque não pelo que é, molho de pimenta. E não temos em casa vários molhos de pimenta para que se destaque um.
Alguns dias depois recebi de presente uma especiaria dentro de um vidrinho. A erva principal embebida no óleo é o basílico. Fiquei mais empavonado que já sou. Uma erva fina, diferente e incomum para o meu meio. A desilusão veio num programa que trata de culinária, quando assisti pela televisão, em um meio de comunicação de massa, a destruição de minha distinção como possuidor de basílico; a ilustre apresentadora disse que tal erva é o nosso manjericão. Manjericão. Isto tem no pátio de casa!
Noutro dia estávamos reunidos e surgiu o churrasco na bola da vez. Um amigo comprou duas ou três peças de costela. Carne boa, fogo bom, e um bom assador, modéstia à parte, garantiram um bom almoço. No meio da tarde perguntaram que pedaço da costela era aquele.
Polêmica à vista. Didaticamente indiquei com as mãos em meu corpo onde se localizava no boi aquela parte da costela. O ato surtiu um efeito interessante. Uma amiga presente disse ser meio estranho, quase mórbido fazer aquela indicação.
O que assustou na ação foi a ligação do pedaço de carne, que todos comeram, com um animal vivo, que no caso era eu.
A partir daí conversamos sobre vários animais, como abatê-los, como recortá-los. Um ato que pela maioria foi compreendido como violento, brutal e desumano.
Ninguém deixou de comer carne assada no dia seguinte.
Aqui está o tergiversar ininterrupto que os intervalos empurram dos meus silêncios para este caderno não-papel.
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Inerências retóricas
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nao grupo nao comento, nao entendo nada de cozinha, alias..cozinha para mim é só um outro lugar para fazer amor
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