Aqui está o tergiversar ininterrupto que os intervalos empurram dos meus silêncios para este caderno não-papel.
domingo, 22 de setembro de 2013
Meudoxo
Sei que quanto mais me afasto da alegria comprada nos comerciais, mais me afasto das pessoas que gosto, considero, amo, convivo. Ao passo que sonho a intimidade advinda do íntimo, opositora da intimidade vida do shopping, troco a cumplicidade das compras pela dificuldade dos seres. Perco intimidades no mundo dos estereótipos. Assim sou menos coletivo mesmo quando quero ser mais plural. Fazer o quê? Sou dado a me relacionar com almas.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
O pão de mãe
Pra ver como é a vida. Havia na minha mesa, dois pães, aqueles de fazer cachorro quente. Nem sou fã deles, mas compro. Fritei um filezinho de frango que a namorada trouxe, temperei com um tempero urugauio, misturei três salsichas em rodelas, sou chique, parti os pães e comi como um padre. Mas ser humano satisfeito é ser humano insatisfeito. Assim, apreciando a chuvarada com raios atropelando o ar parado, pensava na falta que um pãozinho estaria por fazer mais tarde, quando levantasse da rede para um café com leite. Toc, toc... Entra aí Nardo, tranquilo? Sim, é que eu vim da casa da minha mãe e ela me deu muito pão, te trouxe um pedaço. Agora cá estou, a comer pão de mãe, deitado na rede, a chuva caindo e zzzzz...
Anarquismo reacionário
O anarquismo que não é bagunça e sim a soma de movimentos individuais e independentes parece enfim ter encontrado uma forma para se manifestar com efetividade. Era um conhecido que estava completamente desacreditado, estava. Pelo condão pejorativo do termo, muitos ainda enxergam em si o sujeito reacionário que viam, mas já não se reconhecem tanto assim.
Hoje o Brasil é um país politicamente tão cheio de 'anarquistas' quanto o miserável e comercial futebol brasileiro é cheio de técnicos, juízes e lavagem de dinheiro. A diferença clara está no que antes parecia obscuro. O anarquismo, figura que historicamente trouxe o medo de um descontrole social, agora é justamente o elemento que garante ao manifestante de rua tuiteiro, a dona de casa feicebuquiana, ao gerente baba-ovos leitor de jornal, ao militante partidário engajado nas compras coletivas o escudo que não tinham para lhes polir a coragem. O anarquismo trouxe a preservação da identidade. Estamos indo bem, basta continuar.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
A resiliência e a prática de amar
Nesse tamanho que tenho ao peito
frente ao mundo que me veste
sinto o sonho de preencher quereres
além do que me consterna
Nesse caminhar lento de onde venho
a cada dia venço um teste
quando aceito receber dos passos dados
menos do que alcançou a perna
Nesse viver que amanhã intento
por ter no peito esse tamanho
darei hoje mais um passo para o sonho
mesmo aquém do que a boca encerra
frente ao mundo que me veste
sinto o sonho de preencher quereres
além do que me consterna
Nesse caminhar lento de onde venho
a cada dia venço um teste
quando aceito receber dos passos dados
menos do que alcançou a perna
Nesse viver que amanhã intento
por ter no peito esse tamanho
darei hoje mais um passo para o sonho
mesmo aquém do que a boca encerra
sábado, 17 de agosto de 2013
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Distribuindo riquezas
A manhã havia começado há pouco, poucos carros estacionados no centro da cidade, cidade ainda com cara de pacata. Quis chegar ao escritório central bem cedo, queria sair bem cedo. A lancha recém adquirida no último salão náutico estava pronta para o batismo no mar. Nem bem avistei o prédio da empresa, ainda muitos quarteirões da vaga particularmente reservada a diretoria, o Jaguar simplesmente parou. Uma pane. Se fosse na hora do rush encontraria um inferno de buzinas lá fora. Chovia tão intensamente quanto falsas cuecas inocentes numa sessão de julgamento do mensalão. Pude deixar que o carro seguisse sem marcha pelo declive até encontrar espaço, a essas horas abundante, na beira da calçada.
O socorro do seguro avisou que socorrer mesmo, só mais tarde. Olhei e vi uma pequena porta aberta, aberta mas fechada, só não estava trancada e eu sabia que estava aberta porque era de vidro e havia luz acessa dentro, com gente. Quem trabalha cedo assim merece receber sua cota de riqueza, cota de riqueza que tenho para distribuir. A troco de dar pensei no que receber, um café. Desci, me molhei na água da chuva, chuva abundante. Molhado entrei no café e pedi um, sem açúcar, sem leite, grande. Bebi o café e comi bolo, um pedaço grande dele. Carro pifado, chovendo, num café pequeno, simples, pobre. A chuva não sabia de nós, em si mesma apenas chovia. O casaco que ficou no carro também não sabia de mim, eu que com o desconforto do frio, de leve, tremia. A blusa fina estampa e leve que trouxe no corpo estava úmida, fria. O balcão, indiretamente pelo café, diretamente pela cafeteira e sua caldeira, protegia um pouco do frio de fora quem estivesse por dentro. O casaco dela servia menos a ela do que alguém de fora. Sua riqueza no dia frio era, também, o calor.
Ela tão pobre. Eu tão rico. Por fim despi minha riqueza. Já um tanto aquecido pelo café descobri ser ela quem distribuía. Deu-me o calor.
domingo, 21 de julho de 2013
Foi assim
Um cara estava com fome, viu um negócio, partiu e comeu. Era uma porcaria. Catou outro, partiu, cozinhou e comeu. Era horrível mesmo. Olhou na etiqueta do negócio e leu uma mensagem infernal. Naquele momento o universo brecou nas quatro, a coisa tinha nome. O cara enfiou o dedo na garganta e vomitando agarrado a tudo quanto é capim próximo, imaginou o fundo da terra com um ser muito sádico e gritou:
- Pra criar isso só pode ter sido um demônio!
Chegou em casa e contou para a mulher que ainda estava lá e naquele momento, dona de si, escrevia numa plaqueta 'adeus sutiã'. Como o babado parecia ser quente ela arriscou continuar a relação por mais um ciclo até a próxima TPM, mandou que repetisse a notícia. Disse ele:
- Comi um negócio criado pelo demônio.
Ela não conseguiu compreender a subliminaridade do conto pois não havia contraponto. Então o orelhudo tentou ser mais convincente.
- É que um cara muito legal resolveu fazer esse mundão todo aqui, com laranjas, mangas, mamões, cupuaçus, pitangas... por isso chamamos esse lugar de mundão de meu deus. Um descendente dele, nascido dos longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas, por ter nascido com um maquiavélico cabelo loiro, lisinho penteado pro ladinho, vendo que tudo já estava perfeitamente criado, ficou puto. Um dia fugiu com uma nuvem de caspa enquanto deus penteava seus longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas. O loirinho endemoniado jurou amargar eternamente cada estrutura bípede ereta com polegar opositor e terrestre que fosse criatura do criador. Entocou-se numa fundição, chamou de inferno e inventou o Jiló.
- Pra criar isso só pode ter sido um demônio!
Chegou em casa e contou para a mulher que ainda estava lá e naquele momento, dona de si, escrevia numa plaqueta 'adeus sutiã'. Como o babado parecia ser quente ela arriscou continuar a relação por mais um ciclo até a próxima TPM, mandou que repetisse a notícia. Disse ele:
- Comi um negócio criado pelo demônio.
Ela não conseguiu compreender a subliminaridade do conto pois não havia contraponto. Então o orelhudo tentou ser mais convincente.
- É que um cara muito legal resolveu fazer esse mundão todo aqui, com laranjas, mangas, mamões, cupuaçus, pitangas... por isso chamamos esse lugar de mundão de meu deus. Um descendente dele, nascido dos longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas, por ter nascido com um maquiavélico cabelo loiro, lisinho penteado pro ladinho, vendo que tudo já estava perfeitamente criado, ficou puto. Um dia fugiu com uma nuvem de caspa enquanto deus penteava seus longos cabelos brancos super-escovados com luzes e sem pontas duplas. O loirinho endemoniado jurou amargar eternamente cada estrutura bípede ereta com polegar opositor e terrestre que fosse criatura do criador. Entocou-se numa fundição, chamou de inferno e inventou o Jiló.
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