sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A vista do vale

A trilha até aqui vencida e a imaginada coincidem no desenho. O tempo de cada qual é que não sucede ao mesmo momento. Se a coincidência é parcial, parte de mim se satisfaz e o que sobra apenas resta. Já não choro a torta que me caiu da bolsa.
Daqui até a foz de um dos vários riachos que circundam aquela baía preciso andar de alguns a vários dias. Cada riacho quer representar uma quantidade de fios de uma vasta cabeleira. Se eu chegar em dias o momento pensado será o momento atingido. Caso a hora de beijar o lago com um gole d'água tenha passado a sede me trará de volta ao caminho. Se meu cantil for negligente serei pó em pouco passo.
O tempo que caminhei até este mirante já passou da conta. Agora não importo o pé ou o andar que dista conforme vou com o menos ou com o mais que a marca gravada em meu corpo. Vale é unir o desenho do que vejo ao possível momento que sonho.
Além do lago há um horizonte que é linha. Se para o mais longo curso houver um bote, serei o pé que veio ao primeiro lago trazer a mão para remar. Se um barco houver serei a proa. A cada margem que alcanço sou recluso no desejo de absorver a vida na contemplação. Porém o quadro lembra um cheiro.
Me lanço neste vale para mergulhar na pintura. Descer por esta busca tem valido pela vista.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Todo

Vá para o fundo do que sou.
Traga em um saco de despir
toda memória que houver
em cada parte que fui.

Se no teu retorno a ti
não houver sequer um traço
do espírito que me escreveu,
lança fora esta coleta.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Imagem

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Ao gravar tua caricatura

Neste espelho cercado de vento

Enxerga em teu rosto a candura

Do amor que te espera ao relento

sábado, 31 de janeiro de 2009

Entre o cais e a névoa

Já não te quero mais
sou livre como era ontem
senti a brisa que soprou a vida no dia em que nasci
enxerguei a cor da tinta que pintou meu primeiro beijo

Posso seguir sozinho
sem a companhia da fuligem e da bruma
que me impregnaram os pulmões por toda minha descida
na chaminé da tua cozinha

Demorou para se rasgar de mim
a costura que entrelaçou nossos pêlos
que cobriu minha barriga magra
com a manta dos teus cabelos

Arrisco participar deste mono-adeus
como uma mão a abanar o ar de pedra
congelado pela falta de continuidade
entre o teu e o meu mundo

É cedo saber que não voltarás
para o lugar onde não estávamos
quando fechaste a mala do que vivemos
e desfizeste o sonho da espera.

domingo, 25 de janeiro de 2009

roupa de domingo

Há tempo
muito dele para que se conte em dias
pouco para que se conte em anos
senti em mim pela última vez
como ser que transita pela crosta da terra
a perfeita noção de segurar outra mão
e me saber alguém que ama.

A cada passo da vida
que me leva adiante na história
sinto presente o saber
que comigo esteve naquele tempo
muito dele
aclamando a noção exata de viver
e ser alguém que amava.

É o que me esvazia o tic e tac insistente
dos espaços que buscam realidade
sem volumes preenchendo instantâneos momentos
livre de precisar mais do que tenho
quando me visto com a tua lembrança.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O nó e o pinho

Um pinheiro que não pode se dizer perdido na cidade. Este não tem esse direito. Muitos pinheiros tem um porquê de se dizerem perdidos e é certo que perdidos estão. Mas não este.
Hoje à tarde passei quase ela toda sem mais que dizer à frente de que era tarde e foi hoje. Para uma sexta-feira e para uma semana de começo de ano com futuro cheio de probabilidades, passar o vespertino do tempo sem mais que dizer é mais do que improdutivo e menos do que interessante, é pouco. Mas assim está porque assim foi e pouco há que acrescentar no que já disse. E ter atravessado parte do dia num sem-movimento vagar trouxe, para depois do nato e vegetativo passo vivido, a perscrutação da vida e não encontro um anterior pela mesma janela do agora visto e visado pinheiro.
Se a altura que agora frequento não houve em outros momentos mostrando os dias acima das copas das araucárias é por simples não ter havido. Isto por si só não impediria o pensamento que tive quando desta paisagem. Provavelmente só teria alterado o ângulo de visão e não o ponto de vista.
É que onde não há urbanização aqui no estado do Paraná e onde não haviam cidades antes, respeitados os habitáveis lugares próprios para araucárias, estes pinheiros habitavam em multidões. As abundâncias são próprias para que nos digamos sós. Quanto mais somos apenas um no meio de muitos, menos sabemos do todo. Perder-se então é um passo fácil e uma condição própria do habitar grandes comunidades.
Se no chão que fincamos estar não há linha ou número que o identifique, se não há fala para contar outros espaços e há um solo conquistado apenas para uso enquanto vida somos, dizer estou cá onde domino portanto sei onde estou é tão inútil quanto dizer que o vento sopra sem nunca sentir o seu toque.
Ele de certeza não está perdido por simples se considerar que seja uma planta. Se esta árvore vive anos somados por dezenas ou talvez até centenas somadas de anos, é por pouco de probabilidade que não traga já aprendido ouvir o nome da rua onde mora. Pela cena que vi daqui me pareceu ouvir ele dizer que às vezes é melhor estar perdido.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Um dia desigual aos outros

A praça tem sombra e bancos. É pequena. Parece com outras pequenas praças. Tem calçada e folhas espalhadas. Há um bosque perto dela. Nisto difere de muitas. É o lugar que parei porque passava.
Não são todas a minhas manhãs testemunhas de reflexões sobre o tempo passado. Poucas delas dedicam a primeira caminhada do dia para avaliações do que foi. Algumas manhãs conseguem se fazer um pouco humanas. Esta terça-feira chamou a memória para conversar sobre um ano. E foi sobre o ano este que daqui para um dia a mais se acaba. Quase quatrocentos dias pra fazer o ano cheio! Com tanto para contar, se fosse possível fazer dos dias as espigas, poderia dizer que 'é dia pra encher panelas e panelas'. E estas espigas tem todas, neste ano, grãos cheios como minutos preenchidos por vivência. Com o trabalho incessante do relógio temos logo horas e semanas feitas em carreira. Talvez seja preciso imaginar o ano enchendo balaios.
Tenho anos para esquecer. Se não esqueço o que sucedeu nestes anos pelo menos faço de conta que não localizo os fatos na memória por falta de informações. Tento enganar meu cérebro arquivando memórias com data falsa ou ano apagado. Os últimos doze meses poderiam construir um carrossel de horrores onde sentado ao lado eu me faria caras de piedade. Um ano que não foi brindado com nenhum jardim se abrindo ao meu convívio. Tempos de existência posta à prova e resistência vencida. Dos tantos que vivi, descontados os primeiros que me fogem até de vagas lembranças, este foi sem dúvidas o mais intenso e difícil.
Disse que nem todas minhas manhãs se voltam ao passado, porém desta vez, deste tempo, a manhã acordou meus arquivos incessantemente. Não houve um dia sequer em que uma lembrança específica tenha feito esquiva dos olhos da minha alma. Houveram todos os dias para encontrar em mim a fonte para minha vida. Existi um passo atrás da minha existência, obrservando os passos que dava e atrasando passos que por fim não dei.
Quebro com este relatório sem técnica específica para Balanço Pessoal o uso comum dos dias próximos ao meu aniversário e que comumente são usados para fazer o Meu Balanço. Desta feita quebro também o anonimato dos meus balanços. São manias sem conserto. Dou tantos palpites que muito do tempo interrogo se faço assim por razão se dando voz, ou se assim o faço por ter ouvidos bons aos próprios pitacos. Ora pois, intuição ou vaidade na tração destas palavras de bem ditas ou de fraca escrita ficam pra outro momento. Preciso cuidar a tendência retórica per si. Por hora fica o fato de fazer a declaração sem tempo de pitaquear ou arrazoar. O resultado é não haver, no ano que por um ano será o ano passado, um quadro sintético ou um momento fechado em si com força suficiente para resumir os quase quatrocentos dias sobrevividos.
Falta pouco rodar nos ponteiros até a meia-noite e eu não havia me precavido para pensar alto. Quero dizer pensar escrito. Para pensar alto é só gritar.

Inerências retóricas

escrito e dinâmico * A razão é a busca dela. Está sempre entre seu impulso e sua descoberta. ..............................